O Padre e o Pastor
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ou contar um caso de amor... ao próximo nos caminhos que conduzem a Deus. Aconteceu com um antigo sacerdote muito amigo do povo desta cidade. Isto foi há muito tempo, em meados do século passado.
Ele acabara de celebrar missa para as recatadas freiras do Colégio dos Santos Anjos e suas alunas. Deixando para trás um sorriso de despedida para as irmãs e as jovens normalistas, buscou a rua para aguardar uma condução com destino a Porto Novo, onde o esperava um novo compromisso.
O Pe. Antônio Hommann postou-se, então, no ponto de ônibus em frente à “Escola Normal”, de onde acabara de sair. Para junto dele chegou um pastor protestante – José Ferreira –, conhecido pelos seus alunos como Prof. Ferreirinha (era meu competente professor de Inglês no primeiro ano ginasial do CAP).
Naquele tempo, os católicos não gostavam de falar com os evangélicos, nem com os espíritas. E vice-versa para todos.
Os dois estavam sozinhos naquele ponto de ônibus, sob o efeito escaldante dos raios solares. O silêncio entre ambos era ensurdecedor. O pastor evitava cruzar o olhar com o do vizinho, fiel à tradição do preconceito. Entretanto, o padre Assuncionista se esforçava para mexer com o reverendo metodista. Se o ônibus tardava, o diálogo não tardou, mercê da insistência do celebrante católico. Muito simpático, com um magnetismo que raiava os níveis elevados de conexão com o céu, o Padre Antônio conseguiu arrancar uns monossílabos sem graça do companheiro, que insistia em ficar na defensiva. Mesmo com essa dificuldade, os assuntos foram fluindo, aos poucos... Primeiro, sobre o tempo. Depois, sobre o calor. Em seguida conversaram sobre a dificuldade da empresa de ônibus em manter os horários. Já em clima de festa, falaram também de futebol, da Copa do Mundo, de viagens ao exterior, das culturas além fronteiras e terminaram por comer no mesmo prato de suas preferências: o Evangelho de Jesus. E evitando os atritos oriundos de interpretações pessoais, se deliciaram na troca de comentários felizes a respeito da bondade de Jesus e da inesgotável paciência do Mestre em nos suportar. Histórias narradas pelas escrituras foram lembradas com o gosto e o colorido que sabem dar os corações bem formados.
Assim estavam eles amarrados numa conversa de alto nível, quando apareceu, pedalando pela Av. Dezoito de Julho, um cidadão ateu – diziam que ele era partidário do Comunismo. Permito-me não revelar-lhe o nome, por uma questão de ética. O comunista parou sua bicicleta. Olhou para o padre!... O padre o encarou, serenamente, com a firmeza de uma consciência sublimada. O comunista olhou para o pastor, que abaixou a cabeça, meio desapontado, meio tímido, como uma criança que fora pega em flagrante, fazendo uma arte.
O da bicicleta esboçou um sorriso irônico e vociferou:
– Eu não sabia, Padre Antônio, que o senhor se dava tão bem com o Pastor Ferreirinha!...
Enquanto o protestante, bastante deslocado, enfurnado no seu bonito terno de tonalidades escuras, ajeitava o nó da gravata, mostrando o constrangimento pelas faces avermelhadas, o vigário, em sua elegante batina de cor bege, impecavelmente arrumada, de faces vermelhas também – porque esta era a sua cor habitual de holandês sofrido no calor dos trópicos alemparaibanos –, surpreendeu, rápido, o cidadão ateu, com uma resposta fraterna, como era de seu feitio de educador de almas. Suas palavras partiam de um rosto jovial, risonho e eram de uma luminosidade espiritual ímpar, ao mesmo tempo vestida com a graça e a simplicidade das coisas terrenas:
– Eu e o pastor Ferreirinha somos colegas!... Não sabia?... Nós trabalhamos para o mesmo patrão, que é Deus!...
Em sutil reverência, como que agradecendo ao companheiro espirituoso, o Ministro Evangélico finalmente ergueu a cabeça, com o semblante feliz, revelando o conforto máximo de que sua alma desfrutava naquele momento. O padre retribuiu com um largo sorriso.
O terceiro, um tanto envergonhado, um tanto zangado, um tanto vencido, aprumou o veículo e saiu dali em absoluto silêncio.
Cleber Dutra (Além Paraíba, 21 de maio de 2010).